Lava Jato levou ao 'desaparecimento da classe política', diz Gilmar

Para ministro do STF, força-tarefa ganhou ‘uma projeção talvez exagerada e claramente indevida’

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes fez declarações sobre a Operação Lava Jato, nesta quinta-feira (14), ao conceder entrevista à GloboNews. Para ele, a força-tarefa levou ao “desaparecimento da classe política”.

“Toda essa bem-sucedida Operação Lava Jato, que é digna de elogios, levou também ao desaparecimento da classe política, dos partidos políticos. Por isso, ela passou a ter uma lógica própria. Veja que a Lava Jato passou a propor medidas legais, questionar medidas judiciais, a discutir aspectos que transcendem de muito a sua própria competência, a sua própria atribuição, a atribuição dessa chamada força-tarefa”, disse.

Ainda segundo o ministro, a operação ganhou “uma projeção talvez exagerada e claramente indevida”. “Parece que o desaparecimento do Congresso com seu papel de contemporização, de moderação e de enfrentamento muitas vezes levou que essa organização, a Operação Lava Jato, ganhasse uma projeção talvez exagerada e claramente indevida. Mas ela ganhou também popularidade”.

Ao ser questionado sobre a quantidade de habeas corpus concedidos a investigados na força-tarefa – de maio até agora, 21 nomes foram soltos pelo ministro -, ele afirmou que, para solicitar a prisão preventiva, “é necessário que se tragam razões concretas”.

“As exigências que nós fazemos para os decretos de prisão preventiva são exigências talvez muito estritas. Não basta dizer genericamente que há interesse para a instrução processual penal. É necessário que se tragam razões concretas”, pontuou. “A prisão preventiva se justifica para aquele que destrói provas, ameaça testemunha, ameaça evadir-se. Fora daí, é preciso ter de cautela”, completou Gilmar.

Já sobre a relação que mantém com algumas das pessoas beneficiadas por ele, o ministro alegou ter convivido com “boa parte das lideranças políticas que aí está”, durante seus anos de carreira.

“Não somos amigos íntimos, somos amigos naquela forma brasileira de ser”, explicou. “Eu fui subchefe da Casa Civil desde 1996. Convivi com uma boa parte das lideranças políticas que aí está. De vez em quando, os julgo. São pessoas que, às vezes, vêm pedir audiência. Isso acontece. Não obstante, não estou impedido e nem suspeito”, avaliou.

Gilmar Mendes ainda se descreveu como “um aplicador fiel da constituição”. “Não estamos falando de crimes bárbaros. Às vezes, estamos falando de furto de fita de vídeo, de bambolê. Não é que a turma seja muito concessiva, é que há uma dureza da lei penal por aí, por razões que às vezes se explicam: o furto do bambolê estimula essa prática. Sabe-se lá como se avaliam esses fatos no interior”.